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Sigo, Cigano [entries|archive|friends|userinfo]
Sigo, Cigano

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Será que o meu abraço chega aí? [Jul. 8th, 2008|10:33 am]
[Como é que te sentes? |Saudoso]
[O que é que ouves?? |Antony & Johnsons - Hope There's Someone]

O relógio já não bate como antigamente. Hoje os minutos correm ao sabor do vento e as horas derretem-se ao sol. Vejo umas fotografias, sorrio tristemente para o teu rosto, pisco-te o olho. Depois, viro costas e continuo com a minha vida mas já não da mesma maneira. Um pouco de mim ficou para trás ou para sempre mas não ficou certamente, aqui, fisicamente.
Gostavamos de fazer refeições juntos. Começava com política nacional entre aperitivos e acabava umas horas depois com um whisky, um café e a vida toda para falar. Para nós uma refeição era um preâmbulo para uma bela discussão sobre qualquer coisa. Normalmente culminava em provocações mútuas para ver quem se irritava primeiro. Era nesse momento que a minha mãe intervinha. Éramos parecidos, toda a gente o dizia. Parecidos fisicamente, parecidos, principalmente, emocionalmente. Ambos teimosos, ambos temperamentais. Demorámos anos a entendermo-nos mas quando o fizemos, ligámo-nos verdadeiramente como aço e titânio cosidos delicadamente ao nosso peito.
Morreste-me longe e pergunto-me frequentemente: será que o meu abraço chega aí?

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O homem chamado Honesto [Jan. 31st, 2006|03:49 pm]
[O que é que ouves?? |Micah P. Hinson - "Possibilities"]

Honesto procura a vontade. As suas roupas são fiapos, farrapos de outras memórias e de outros tempos. Já não tem dinheiro. Já não lhe interessa o dinheiro. O seu cabelo sujo, as suas unhas escuras. A sua boca que rasura cada vontade. A sua língua que já não esboça sequer uma palavra, só serve para cuspir. Anda e anda e dá voltas, procurando esquecer o nome que o deixou cravado na idade que provavelmente se espalhou por toda a cidade. Nos caixotes de lixo encontra a sua cama, o seu alimento, em suma, tudo o que necessita. A sua ambição reduzida à mais pequena necessidade humana. A sua vida que até ir para as ruas durou um segundo, leva agora anos a passar. Vagueia assim, escondido na inconsciência da noite, procurando talvez que esta lhe desfaça a vida toda em pedaços, na esperança que ao colá-los, estes, sejam um pouco melhor do que a merda toda que viveu até então. Pouca sorte, como sempre. A noite não lhe dá qualquer resposta, não o desfaz, não o espalha pela cidade, não o sossega, antes pelo contrário, rebenta-o, corrói-lhe as entranhas.
Atravessa-o o frio. Beatas até as tem, são fáceis de encontrar, já um fósforo é um bem mais escasso e fumar torna-se um processo tortuoso. Chove! Chove copiosamente! Pouco lhe importa, que ao menos a água lhe encharque a alma, lhe afogue os pensamentos, lhe acalme a ânsia: “Foda-se! Posso ao menos curtir esta chuvada sem que ninguém me chateie? Merda para isto, pá!” grita ele enquanto os carros lhe fazem razias e buzinam. Honesto… Honesto, nome fictício desta personagem fictícia. O Homem não existe e Honestos, também não, quando existem, estão na rua, servindo de tapete aos homens, que seguramente minúsculos, se passeiam por elas de carro, buzinando, protestando com estes obstáculos que os diminuem.
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A reconstrução de um quadro [Mar. 15th, 2005|11:30 pm]
[O que é que ouves?? |Mi ideme preko pole - Bulgarian voices]

Ali ao fundo da pintura, no recanto, seguro, quase escondido, olhas absorto para algo que olhando assim não conseguirei descortinar. Toco. Talvez tacteando o traço possa sentir as cores daquilo que olhas ou daquilo que sentes ao olhar aquilo que para mim é ainda incolor. Parece complicado. Talvez olhando o quadro como um cego, ajude a analisar o odor e a desfiar quase sinapticamente – poderia se esta palavra existisse – as filigranas de cada um dos teus raciocínios sobre o que observaste.
Deixa que te diga, não preciso entender uma palavra da tua língua. Poderás falar árabe ou aramaico que para mim será igual. Tu comunicas com a pele, com a barba branca, com o cajado que seguras nas mãos calejadas do trabalho e das temperaturas extremas que te ferem a derme. As tuas mãos falam-me muito. Acham que ainda poderás acrescentar alguns Invernos à tua lavoura. As tuas unhas negras da terra, dizem-me que gostas de mexer na terra, de falar com ela, de apanhá-la desprevenida enquanto a deixas escapar entre os teus dedos diante dos teus olhos. Outra vez os olhos. Esse verde-azeitonado tranquilo como uma velha oliveira. Esses olhos que esclarecem quando se enchem de lágrimas cada vez mais gordas de quando em vez. Não é fácil ver tudo destruído. Ou tudo ardido. Ou tudo interrompido por uma pausa que tu não pediste

O bombardeamento suspendeu-lhe a vida, levou-lhe toda a vida: a mulher companheira, a filha, o genro e dois netos. Levou-lhe amigos daqueles que construíram as suas recordações de rapaz. O gado, dizimado. Até o seu cão, aos pedaços. Toda uma existência, em breves minutos, reduzida a crateras provocadas com bombas com nome de mulher estrangeira.
Yusef escapou porque pastava o gado tranquilamente a distância segura. Ouviu tudo. Viu tudo. Foi impotente. Como poderia avisar a aldeia que os dois aviões iam bombardeá-los? Quem é que haveria de querer assassinar gente pobre e sobrevivente do deserto? Eram grãos de areia no mundo. Só a Lua e o Sol sabiam da sua existência. Aquilo não era suposto ter acontecido… mas aconteceu. E ele sabia isso. Sabia quando mexia na barba que depois daquilo estava só com as suas recordações, com a sua mágoa. Sabia que tudo isto era uma injustiça… mas de facto, nada sabia.
Enterrou os mortos, reconstruiu a sua casa e aos poucos foi lavrando a terra e arranjando novos animais. O deserto estava mais deserto mas as estrelas continuariam a brilhar, talvez agora até mais fortes.
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Um brilho na escuridão [Mar. 9th, 2005|01:05 am]
[O que é que ouves?? |"Canção do Desterro" - Zeca Afonso]

Eu hei-de ver-te brilhar na escuridão, tal como a luz se há-de diluir nas estreitas frestas de portas pesadas de uma qualquer igreja perdida numa aldeia morta. O fogo por aí não encontrará alimento, a ninguém roubará a vida – ali não há vida, só escombros – naqueles caminhos de terra disfarçados com ervas daninhas.
Debaixo de um ou outro telheiro ainda se encontram vestígios deixados por alguém que fugiu à pressa: talheres, um ou outro trapo e até um braço de uma boneca arrancado pela urgência. O vento ali não afecta ninguém, nem o frio queima a pele de algum lavrador desprevenido. A vida ali, em tempos, empilhou-se como folhas de xisto, até ter formado várias camadas de passado. O passado…
Olha-se em redor, fecham-se os olhos e voltam-se abrir, mas desta vez com um filtro a preto e branco. Ali é impossível verem-se todas as tonalidades de cinzento e as cores, esbateram-se num dia já quase esquecido por três – quase quatro – gerações. Poucos se lembram do que terá acontecido. Eu arrisco que ninguém se lembra, pelo menos de ter presenciado o sucedido. Uns dizem que foi uma rixa, uma luta entre duas famílias. Outros, que foi uma velha rivalidade entre duas aldeias. Outros, que a terra foi perdida ao jogo e que o povo foi expulso para que dali se fizesse uma coutada. A verdade e não o motivo, é que ali existe, hoje, um terreno para caça. A casa daquela gente, assassinada.
Resguardada pelo casario, uma cabra dá à luz. Ao longe, ao longe, assustada, uma manada de veados – vejo-os de fugida – foge para outra colina, resguardados pelos arbustos e sobreiros. Nunca tinha visto veados, são lindos. Saltitam elegantes como se o mundo fosse um imenso colchão. Percorro o vale ao longo de um longo muro de xisto, construído por mãos minuciosas. É um imenso puzzle, com peças devidamente encaixadas que ao correr da luz parecem uma simples linha que acompanha o vale e o subir da encosta. Falo em camuflagem e daqui do alto, já não descubro a aldeia, está despercebida e disfarçada na paisagem. Faz lembrar um daqueles jogos em que nos pedem que descubramos uma imagem noutra. Assim está lá, disfarçada de natureza. E se pensar bem, é o que ela é agora, parte de um vale, rochas em forma de casa. Quem lá viveu, já não está lá. Sim, o velhote que ali se viu nascido, crescido, os avós a morrer, os pais a envelhecer, os filhos a nascer (sim, todos nasceram na sua casa, à excepção do mais velho que nasceu na casa da avó no fundo da aldeia, junto ao centenário moinho), “que céus!” a filha do meio a morrer no parto e o genro a correr em direcção ao Tejo, jurando afogar-se, não chegando nunca a molhar sequer os pés – tropeçou até à morte, batendo com a cabeça a dois metros do Majestoso e Tranquilo. O velho sobreviveu a muitos, mas não sobreviveu à sua mulher, a (presumivelmente) velha Elisabete, que tinha nome de rainha mas era rija como o granito que se encontra a alguns quilómetros a norte. O velho foi encontrado morto, com a cabeça encostada à ribeira da aldeia, como se esta lhe murmurasse o segredo de correr tão fresca.
Morreu dois dias antes da aldeia ser escorraçada. A velha Elisabete, não deixou o marido e também ela, deixou a ribeira murmurar-lhe ao ouvido a doce cantilena do descanso eterno, não se queria separada e fora de casa.
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Partidas e Chegadas [Feb. 23rd, 2005|01:52 am]
[O que é que ouves?? |Mojave 3 - "Caught Beneath Your Heel"]

Como quem deixa um dia a porta de casa e deixa as chaves, descontraidamente no portão do jardim. Como quem diz um olá absolutamente normal a quem tantas vezes lhe sorriu. Como quem um dia, fugiu, quando o que fez foi não parar nem olhar para trás.
Um dia já não se sentia respeitável, ou melhor, já não se sentia "aquele" respeitável senhor. Cansou-se de se barbear, de se pentear com a franja ao lado, de vestir aquele fato cinzento e engomado com os vincos certos, de colocar aquelas gravatas foleiras, ou melhor, ainda mais foleiras do que era costume, pois “detesto gravatas!”. Aquelas filas intermináveis do trânsito a caminho do emprego, eram parte de um passado que queria recalcar. Aquelas conversas tão artificialmente alegres e activas que os locutores de rádio mantinham às sete e picos da manhã que usava para acordar, nunca mais seriam escutadas. Aqueles bons dias sofríveis que dava de sorriso amarelo aos colegas e chefes, esses nunca mais. Aquele café de máquina, cheio de borras e aqueles muffins de pacote, adeus! Aqueles dias intermináveis de expediente e a colega mamalhuda a flirtar para uma escapadela depois de almoço esses dias... adivinhaste, nunca mais!
Naquele dia, saiu, caminhou pelas ruas, bebeu um café decente e bolo ainda mais decente. Folheou um livro e sorriu, não lamentando nunca mais olhar para um relatório cheio de gráficos, gralhas e mau português. Nesse dia viu a luz do dia por entre as esquinas dos quarteirões e percebeu que o que precisava mais, era de alargar os seus horizontes... literalmente. Foi ao aeroporto, olhou para o ecrã das partidas e decidiu qual o destino mais longínquo e arejado. Pela primeira vez, não viajava em turismo ou em trabalho, viajava e isso era-lhe suficiente. Quando lá chegasse, logo decidiria se ficava ou partia para outro destino ainda mais afastado. Decidiu se um dia chegasse aos antípodas, por lá ficaria... sim, esta hipótese satisfazia-o.
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O grito [Feb. 10th, 2005|12:32 pm]
[O que é que ouves?? |Animal Collective - " Native Bell"]

É um grito. É mesmo um grito. É um grito no escuro, um rito que se enforma e vai clareando. É um homem e um grito, numa espécie de rito. Há muita gente mas o grito isola-o. E o escuro à volta dele, do grito dele, do alerta dele, da sua revolta ou do seu medo. Grita e ecoa. Já não é um grito, são muitos gritos, são todos os gritos do mundo, não há quem não grite e não há quem não esteja só, isolado no seu grito ou no seu rito.

Os olhos pregados no chão, depois no céu. Os pés inconformados ou talvez só, assustados, movem-se, andam sem parar aos encontrões nos outros gritos. Os olhos raiados, coléricos, depois do grito, narcotizados, aliviados. Gritam, gritam, gritam até se ferirem. Gritam, gritam, gritam até não se fazerem ouvir, até a garganta estar em sangue, até à total rouquidão ou até à cegueira da sua escuridão. O grito é depois, então, um grunhido tão sumido que se torna só seu. Um gemido que jamais poderá ser ouvido.

Gritei-me até me despir, gritei-me tanto que julguei que destruiria a ponte de cristais de sal, erigida sobre o fosso lamacento e movediço das areias do tempo. Julguei que lá cairia, ao invés disso, tudo se solidificou. Já não precisei de gritar, o meu grito tornara-se num canto diatónico, em duas vozes que se erguiam destemidas sobre a calçada fria da cidade. Ao meu lado mais duas vozes e outras duas e outras duas, tantas vozes que os meus ouvidos pudessem alcançar. Todas em uníssono e diatónicas, em coro pela universalidade.
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666 – Um lugar do Diabo [Jan. 19th, 2005|04:03 pm]
[O que é que ouves?? |The Earlies - " In the beginning"]

Aqui, onde o monte se junta à manhã e a neblina escorrega em insinuantes e sinuosas gotículas. O vento vai-me beijando, abraçam-me em silêncio as cigarras e um cigarro é amigo nas sombras mais escondidas de cada buraco da noite e no versejar enigmático das folhas do plátano. Incontáveis bichos fazem a sua vida, preguiçando como gostam, trabalhando ao ritmo a que podem.
Fecha o livro, encerra as páginas, adormece na rede, na sede de paz entretanto saciada. És tranquilidade e por isso voz de aconchego desta carícia… delícia, este chá de Lúcia Lima arrefecendo fumegante ao sopro ligeiro da tua boca entre as minhas mãos.
No alto do monte, afastado do mundo, vê-se terra e o mar, vêem-se alguns vales, lezírias ribatejanas, uma serra, outra serra: Sintra e Candeeiros. Além a foz do Arelho e a península do Baleal. Seiscentos e sessenta e seis metros de altitude de onde o Diabo vê tudo, desde a alma até ao pecado. Aqui o ar é tão limpo e puro que os pulmões viciados e poluídos nos doem a cada golfada de oxigénio, o peito rasga-se, a pele gela e o corpo vive mais um pouco. O Demo gosta de ver tudo a nu.
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Uma nova jornada [Jan. 2nd, 2005|05:29 pm]
[Como é que te sentes? |Andarilho]
[O que é que ouves?? |The Afro-Celt Sound System :"Life Begins Again"]

Comecem o ano com uma boa aurora.
Sigam, ciganos, amantes errantes em argolas de fumo mesto. Assim reza o texto e o mote para novas jornadas. O caminho é bom, o trilho está pouco usado, mesmo que já tenha sido muito pisado. As matas são outra vez selvagens e crescem Medronheiros e Amoreiras selvagens nas pegadas dos javalis. Abram bem as narinas, recuperem o fôlego e sigam ciganos.
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A morfologia do Mestre Paredes [Jul. 25th, 2004|02:18 am]
[O que é que ouves?? |Carlos Paredes]

Ouve um discurso a sussurrar nas pontas dos dedos: firmes, ágeis e livres para se lançarem ao bailado do vento.

Estas são as mãos que mexem e remexem nos poros fazendo festas; estas são as mãos que recolhem cravos vermelhos para distribuir um por um, em cada porta; estas são as mãos que apertam outras mãos humildemente, sem saber que as outras que apertam as tocam como um privilégio dado por um génio.

Aquela é a cabeça que realiza movimentos perpétuos imaginários, construindo peças inteiras sem nunca as ter tocado, que as liberta dando asas sobre o mundo para que este o veja como sempre desejou: harmonioso.

Aquela é a boca que respira e pulsa a cada dedilhado, a cada nota que soa e fica suspensa, ficando um expirar também ele suspenso até à próxima inspiração.
Aqueles são os olhos que se deixam encantar pelo corpo melódico, que vai posando para o filme que realiza, enquanto descreve o quarto em que dorme.

Estas foram as palavras ditas por um poeta de forma diferente. Não as escreveu, tocou-as. Não as disse, dedilhou-as. Rimou-as, alinhou-as, juntou-as como queridas amigas que se sentaram num alpendre de Julho a beber uma ginjinha. Abraçou-as como um pai abraça um filho depois de vir da guerra. Beijou-as como um amante que não quer partir até amanhã. Como um poeta, não se despediu das palavras, deixou-as por cá nos braços da sua guitarra.


pequena homenagem ao Mestre Carlos Paredes
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Cena cortada – Take 8 [Jul. 15th, 2004|02:43 am]
[O que é que ouves?? |Mark Kozelek - "Bad Boy Boogie"]

A loja está fechada. Discuto com o homem, digo-lhe que só quero comprar cigarros, que são só trinta segundos, que se não fumar agora só fumo amanhã, que é muito importante - por favor, por favor, o que é que custa? - o gajo não me liga... o que é que custa?
Esta é a primeira cena de um filme mau, um filme de pipocas, com uma bala em câmara lenta enquanto passa o genérico dizendo o meu nome, perfurando o pescoço mal barbeado, os olhos vidrados, o sangue a espirrar para a montra, o crucifixo a saltar, o homem a morrer e o meu nome bem bonito, artístico, a passar em letras garrafais tamanho catorze.

É tudo tão insanamente bom ou tão vulgarmente trivial que prefiro não olhar para trás. O homem lá ficou, caído, com o meu quase maço de tabaco… ter-lhe-á valido de muito. Passo por uma puta e digo olá. Ela molha os lábios e diz-me vem cá. Respondo-lhe fica para depois. Um velho crava-me um cigarro e eu não tenho mas como sou bem-educado, peço-lhe um trago da aguardente noventa e cinco de álcool etílico. Arde. Arde e sabe bem arder. Bem preciso desta dor. Peço-lhe mais um pouco dessa dor, preciso de recuar um pouco, preciso de me lançar à embriaguês rapidamente e dispensar por uma hora, duas horas, as que forem possíveis, a lembrança que sou indiferente à morte dos outros. Foda-se... preciso de foder. Não! Preciso de dançar, preciso de rodopiar, preciso de me cansar.
Fixo-me a olhar para uma mulher ruiva, olhar negro, camisa de dormir quase transparente. Ao lado, outra mulher, vestido negro e chapéu de plumas negras a condizer. Na mão esquerda um lenço púrpura e na outra, uma trela com um doberman de porte elegante... são só telas numa galeria sofisticada, mas são estas as mulheres que me confortam hoje, não dizem nada e nem precisam, basta-me o seu olhar sem vida atravessando-me, para um ponto lá no infinito onde o destino dobrou uma esquina.
Que saudades de ser criança e ver o mundo pela metade, sem complicações. De correr na rua e falar sozinho sem receio de ser mal interpretado. Olho as mãos e vejo o sangue de uma vida inteira nas mãos. Isto não é um "cartoon" e eu não sou um justiceiro vestido de negro, sou um homem com um reflexo desmaiado e umas olheiras suficientemente grandes para provarem que o meu sono sofre de atrasos crónicos. Sou perdido e achado neste argumento. Sou o protagonista de uma comédia negra, de uma tragédia pessoal, de um "road-movie" que se perdeu no mapa.
Pretendo acordar amanhã na rua, aninhado num vão de escadas, cheio de frio, a precisar urgentemente de um café e de um cigarro.
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Moléculas a dançar [Jul. 7th, 2004|01:43 pm]
[O que é que ouves?? |Stephen Malkmus & Jicks - "1% of one"]

Debaixo de chuva, num baloiço, num andar para trás e para a frente, visto de cima, visto em rotação, tudo a rodar: as ideias, a cabeça, o mundo... o mundo não pára de rodar, pois não? Nem o tempo de contar.
É um movimento intenso de moléculas que não se entendem no universo, que chocam a toda a hora, que se agitam entrando em lutas titânicas para prevalecerem umas sobre as outras... talvez seja esta a sua forma de entendimento. Talvez nestas unidades tão simples que nos compõe e a tudo o que nos envolve, esteja a chave de tudo isto. Não deixa de ser curioso que partículas ínfimas como os iões, protões e neutrões estejam na origem da vida.

O Miguel está-se nas tintas para os átomos, não dá crédito nenhum a "uma cena que nem se vê"... para ele há que relativizar isto tudo e seguir em frente sem pensar muito nesta história do onde vimos e para onde vamos, que isto de "viver já é muito complicado".

Debaixo de chuva, as moléculas a dançar - um casal jovem, digo - ao som de gotas de percussão em calhas de alumínio, nas telhas de zinco, nos baloiços de madeira e em loiças de porcelana barata, tudo conjugado num ritmo que lhes permite, naqueles ouvidos tapados por moléculas de cera, de harmonizar aquilo numa dança da cópula. Estão excitados e a culpa – não sabem, adivinhem – é das moléculas!
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Passo certo, passo errado [Jul. 6th, 2004|04:40 pm]
[Como é que te sentes? |Vigiado]
[O que é que ouves?? |Wilco - "Less than you think"]

Alguém me vigia os passos e não são as solas gastas dos sapatos que mo dizem. Sinto-o, em toda a parte. O chão vai-se tornando mais duro, vou sentindo cada pedrinha da calçada, um mapa inteiro dos meus percursos incrustado na planta dos pés.
Finjo não perceber que me olham, olho para o solo, olho para "lá". Desfio este meu novelo de pensamentos e memórias, procurando o princípio do "eu sou, eu estou, eu vim e eu vou". Olhos, muitos olhos ou um olho gigantesco com uma íris a devorar-me o corpo inteiro.
E se for realmente engolido por todos os caminhos? E se umas pálpebras me trincarem o rosto, arrancando pedaços de carne e cuspindo-os para uma sanita? Ficarei desfigurado? Perderei a identidade? Serei mais um, mendigando nas ruas da baixa? E se, pior que isso, uma pupila me fixar, fotograficamente, num instante, retendo o meu raciocínio num neurónio alheio? Quem serei? Ou melhor, o que serei? Um vegetal? Um ramo partido e depois queimado e carbonizado?
Não importa, não é relevante. É uma questão de escolha de caminho, é isso que determina tudo.
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Piro memórias [Jun. 2nd, 2004|02:56 am]
[O que é que ouves?? |Tuvinian Singers & Musicians - "Gennadi Tumat"]

Mão firme, tens ainda muita história para gravar nesse pedaço de madeira: cada labareda correspondida com um desenho correspondido com uma memória. A chama chamada a intervir no registo de um acontecimento.

Da pira de onde ardem os segredos bem guardados, libertam-se os fumos malcheirosos de desejos recalcados. Os favores concedidos e as benesses concedidas por troca de uns cêntimos são pedaços de carvão em brasa. És um verme, um corrupto, pior: és um voyeur ou pensas que não te vi a espiar as sombras saídas de um quarto vizinho ao teu? Aposto que te masturbaste com as silhuetas divertidas.

Esse fogo é escanzelado mas esfomeado, come-te todos os pedaços, até aqueles que julgas incombustíveis. Arrasta-se pela tua pele lenta mas vorazmente, sem qualquer misericórdia... não a mereces, não é verdade? Daqui a uns minutos serás um pedaço de derme encarquilhado à volta de pedaços de carne e músculo carbonizado. A tua massa encefálica, com um pouco de sorte, evaporará. E de ti, só restarão os teus ossos para serem pendurados na praça mais movimentada da cidade... nojento. Quero ouvir o último gemido que sair da tua garganta inflamada, quero sentir esse "ai" encalhado na secura da tua língua, colado ao céu da boca, enquanto os teus dentes caem um após outro impedindo sequer essa sílaba miserável de assobiar pelos teus lábios desfeitos em papa.
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Dentro desse vestido [May. 26th, 2004|01:05 am]
[O que é que ouves?? |Nusrat Fateh Ali Khan - "Whirling Dervish"]

Dentro desse vestido, por entre esse tecido, mora o corpo que me decide. Desse movimento que faz arrastar os meus olhos transparece a manhã... vem para o pé das mãos que te seguram as costas e segura com os dentes essas palavras de agrado… não é preciso, pois não? Tu estás comigo.

O meu quarto não tem vista para lado nenhum. Tenho um postal com um velho casal, ar gasto, agarrado às drogas mais viciantes e às dores mais lancinantes que atenuam a miséria com o amor companheiro dos anos. É uma imagem feia, aquela, mas é a imagem mais certa que encontrei do verdadeiro amor: o amor desprendido, compreendido, o amor do tudo-se-perde-menos-isto-ao-menos-isso.

Nesse vestido - alça descaída, ombro descontraído - vem desbotada uma nódoa-cor-de-morango-açucarado que desce do teu externo até ao remate certeiro do teu umbigo. Gulosa. És tão bonita! És como aquela canção que o Caetano Veloso canta, "Maria Bonita" e eu a guitarra que se dedilha a olhar-te.

11:11, hora certa, sem segundo mais segundo, não interessa. O minuto onze é um minuto precioso, o minuto despercebido em que tudo se passa, em que não há badalos, mas que eu escolhi como hora certa para te dizer "Olá, vem cá".
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Aos poucos [Apr. 29th, 2004|01:31 am]
[Como é que te sentes? |Esperançado]
[O que é que ouves?? | Tosca Tango Orchestra - "La Cosa Pequeña"]

Ainda dorme. Dei um toque no copo para que despertasse aos poucos, para que viesse aos poucos, aos poucos da realidade cinzenta em que se habituou a coabitar. Chegou pelo seu pé, desgrenhado, com ar desgraçado e com palavras desfiadas por um raciocínio cortado. Eu dei-lhe o braço e apoiei-o sem asco. Ele sorriu sem dentes, sem muita expressão mas com os olhos puros, que só alguém que se perdeu num cativeiro pode dar. Eu senti-me eufórico e no entanto emocionado, como que a olhar para um fogo de artificio que dançava, ali, diante de mim.
Não me contou muito, não me queria contar muito e eu percebi. É muito duro partilhar algo que se pretende que fique nos confins da memória. Ele soube-se quase no infinito da noite e agora, com olhos de toupeira custa-lhe ainda a enxergar, por isso tacteia tudo com muito cuidado.
Aos poucos, dei-lhe um pouco de espaço, para que se virasse aos poucos. Para que respirasse da chegada de uma coreografia tirada de um quotidiano ainda demasiado vivo. Muitas camadas de pó haviam-se acumulado desde que partira e a carta que me deixara escrita, permanecera em repouso, à espera que se confirmasse o seu "volto já". Pedi-lhe que dormisse mais um pouco, afinal - pensava - há muito que não dormia uma noite completa e em absoluto repouso.
Eu fiquei ali, espreitando o seu sono, incomodado com os seus balbuciares suados. Até ser dia não mais acordou. Naquelas horas todas em que dormia, uma só frase, se me repetia em loops cadenciados: "estás vivo, estás aqui e vais recuperar a tua vida aos poucos, aos poucos...". Sem estigmas, sem traumas, aos poucos porque um puzzle não se monta atirando as peças todas ao ar. Os encaixes estão por aí... procurando, aparecem.
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Circunstâncias [Apr. 21st, 2004|01:30 pm]
[Como é que te sentes? |mas que chuva é esta?!?]
[O que é que ouves?? |Kroke - The Secret of the Life Tree]

Se calhar implodíamos as paredes da vergonha e moíamos, tijolo a tijolo, cada um dos fragmentos de memória, até serem pó.

Acredito que a culpa te sufoque, a verdade te arrepie e a vontade de te veres livre desse sentimento te faça jurar que nunca mais. Não consegues suportar mais uma memória tão gelada que te queime as mãos, pois não...? Percebo. Quem te havia ver a mudar. Quem ousaria adivinhar que um dia te regenerarias? É tarde bem sei. Até preferias talvez nunca ter sabido o que é o arrependimento. O arrependimento é ácido sulfúrico na pele e a culpa, um líquido que dilui a voz. O teu peito há-de ficar esmagado por esse não poder refazer os actos. A vida por vezes escreve-se difícil e logo por azar terás sido apanhado entre duas aspas: "criminoso".

Dentro de ti não há culpa, não há inocência: há circunstâncias. Esses malditos estratagemas que maquinavas sempre a desprezar as consequências. A essa coragem eu sempre brindei com um copo cheio de estupidez. Não te doem os joelhos na reclusão? Não te dói a liberdade quando a humidade se acumula na tua pele? Não me acuses de escarrar conselhos! Não te atrevas, pois então serás o meu escarrador...

Desengonças-te, quase nú e um quase zombie pelas passagens apertadas, por entre cheiros a merda e urina acumulada de anos. Já não recuas. Conheces cada centímetro do chão que varres, tal a força com que esse local se interioriza em ti. Pálpebras mal abertas, mal habituadas à luz. Olhos aos cacos, comatosos. Como é isso de nada sentires? Como é a essa realidade? Valeu a pena? Pois... as circunstâncias...
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Fareja, marca território [Apr. 16th, 2004|01:24 am]
[Como é que te sentes? |Rafeiro]
[O que é que ouves?? |David Grubbs - A Shiver in the Timber]

Fareja, marca território. Sabes que naquela rua escura ninguém te poderá vigiar. Suja, sê igual a ti mesmo. Come nos caixotes os restos podres que alguém não quis comer... estás magro, come!
Fareja, marca território. Não sabes se amanhã o pouco que te custou a obter, não será conquistado por outro mais forte. Dorme de dia, vigia à noite. A vigília é sábia e poupa-nos umas dentadas.
Fareja, marca território. Não confies em ninguém, não antes desse alguém confiar em ti primeiro. Lembra-te que quem tiver medo de ti, será dominado (invertendo posições, também) e que quem por ti mostrar respeito, será merecedor de um voto de confiança; eu disse um voto de confiança, não a tua casa.
Fareja, marca território. Contempla a noite, contempla silhueta do casario pela colina abaixo, abriga-te do vento gelado das avenidas. As luzes das caixas de fósforos vão-se apagando aleatoriamente. Apenas o velho do terceiro andar do número 39 a deixa acesa. Não sabe que o escuro o protege.
Fareja, marca território.
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Fotogramas [Apr. 15th, 2004|01:56 am]
[Como é que te sentes? |42 gramas]
[O que é que ouves?? |Fuck and Run - Liz Phair]

Não há trocas de palavras. Não há frases que terminem em interrogações de tudo bem. Não há planos fixos, há um piscar de olhos. Não há quem nos diga que tudo continuará desde que - pior seria - respiremos. Não há sentido para a morte excepto na ponta de uma faca afiada. Não há.
Ou há? Há. Há o antes e o depois. Há tudo o que culmina em e há tudo o que foge dos dedos depois da suspensão do tempo, depois daquele incrível, escasso mas no entanto interminável intervalo de tempo em que tudo pára. Não tens de aceitar, tens de viver com isso, seja bom ou seja mau. É essa a foda, boa ou má.
A cama e a mulher, nua nela.
O fumo e o coração que vai quebrando.
A silhueta dos mamilos,
Firmes,
cheios de vida
Ou o coração que vai cedendo…
Hoje arrumou-se mais um dos milhões de fotogramas que se instalam na gaveta caótica de todos nós. Cada um, tu, guardaste milhares de imagens que te picarão a cabeça até ao resto dos dias, mesmo que o resto dos teus dias termine amanhã. Mas para que servem estas imagens? Para te mostrar que estás vivo? Pode ser... mas não. Para que aprendas a ser estúpido todos os dias, porque toda a gente ou se está nas tintas para o que vives ou nem tem tempo para olhar para o lado. E isso é o que pretendes fazer? Abrir uma lata de cerveja e arrotar para o lado? Um bom princípio será na minha perspectiva, colocares a mão à frente quando o fizeres, os outros apreciarão o gesto e podes ter a certeza que olharão para ti de outra forma. Passarão por ti na rua e apontarão, comentado para o lado: "aquele gajo é um tipo asseado". Se uma senhora de idade passar por ti na rua, cumprimenta a velha, não te custa nada.
Qual é ideia disto tudo, perguntas tu e bem (que eu no teu lugar, faria o mesmo). A ideia é seres menos mais um. A indiferença é uma coisa estúpida e estupidifica (e que frase estúpida, dirás).
O real disto tudo, é que tu, eu e até aquele gajo asqueroso que almoçava na mesa ao lado no outro dia, somos pedaços de memória de outras pessoas, inclusivamente de pessoas que nem conhecemos nem nunca ouvimos falar. Somos e o mais caricato, é que a nossa vida muda com esses “frames”. Um cabeludo oleoso com um estilo foleiro pode realmente mudar a forma como vives.

Não descobri a pólvora mas apeteceu-me dispará-la.
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Falso é o reflexo da seiva [Jan. 23rd, 2004|03:30 am]
[O que é que ouves?? |Blue Angel - Antony and The Johnsons]

É falso que a figura que vejas diante de ti sejas tu. O teu cabelo não te cobre os olhos assim e o teu nariz não é torto. É perspectiva. Garanto que as árvores respiram azul e consomem orvalho. Garanto que tenham ideias brutas e circulem palavras elaboradas
Clorofila cloroplasto
É falso o reflexo. Falso como uma semente a brotar planta. Falso e eu fico perplexo. A tua natureza não é de reflectir e tu és genuinamente artificial. És um produto inacabado da tua respiração perante uma situação que não controlas: o espelho. És oxigénio e ela, dióxido de carbono… vês a diferença? O ar que inalas é o ar que ela exala
Fotossíntese respiração
É sobretudo da seiva que cresce a forma e se ocupa o espaço. Falso é o reflexo da seiva. As raízes também apodrecem e as suas folhas eventualmente já secaram e é sobre e por isso que o espelho declara a verdade.
.otnapse ed araC
sohlo suem so aracnE
otnarp on

assevertatravessa o teu corpo com um ramo seco e diz-te invertido, subvertido, pervertido, divertido ou talvez nem digas nada porque estarás morto, derramado no reflexo baço de um espelho sujo.
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Desmascara-me [Jan. 15th, 2004|07:49 pm]
[Como é que te sentes? |Bem]
[O que é que ouves?? |Thick - Lambchop]

Sou dono de uma expressão de sorriso feio, falso. Sou dono de uma cicatriz que me marca o rosto e dramatiza o olhar. Sou dono de um andar viciado, rotineiro, sei de cor todos os caminhos por onde vou. Sou dono da mentira, dos jogos e da arte de bem aldrabar. Sou uma espécie de foguete na vida de quem me rodeia e a minha luz quase nem se vê. No entanto, sou um espasmo no marasmo, ainda que digas o contrário:
- És uma visão patética – dirás.
- Esta é a visão que eu te ofereço – direi.
As frases saem-me fria e cruamente e sou imune a murmúrios doces e lânguidos… causa-me arrepios a languidez. Eu gosto é de porrada. De ver um homem a ser espancado e uma mulher a ser violada. Gosto quando os olhares ficam esbugalhados de espanto à primeira pancada, invadidos de surpresa. Gosto de ouvir uma pessoa a ganir de dor a cada golfada…

Atende o telefone… estou a escrever…
Lembro-me quando era miúdo e a idade ainda me permitia ver pelos olhos dos outros, de passar a vida a correr. Interessante como os miúdos não conhecem o meio-termo, só querem correr, só querem ser os primeiros e chegar primeiro. Têm pressa de viver. Se soubessem a velocidade a que o tempo corre quando fossem mais velhos, não correriam tanto. Desejariam carregar no pause e suspender a juventude para sempre. Eu só desejo, recuar e fazer o mesmo.
A morte deve-se encarar com uma lágrima que cai até ao sorriso.
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